Texto do Prof. Fernando Altemeyer Jr, assistente doutor da PUC-SP
(publicado originalmente no facebook).
Carnaval, do italiano, carnevale: folguedo, triduo de momo ou folia. Os portugueses chamavam-no de entrudo, jogando nos brincantes das ruas, muita água suja, farinha, tinta, papel. Se propagou a ideia pagã da liberação da sexualidade. Acredita-se que tenha surgido na Grécia, em meados dos anos 600 a 520 antes de Cristo, quando celebravam cultos em agradecimento às divindades pela fecundidade do solo e fartura na colheita. As folias carnavalescas remontam aos bacanais greco-romanos, festas dionisíacas ou festas da carne. O Brasil organiza, desde o século XIX, festas envolvendo multidões pelas ruas das cidades com destaque internacional para o frevo de Olinda e Recife, em Pernambuco, e o carnaval na Marques de Sapucaí, do Rio de Janeiro (RJ). Na Bahia, a força e a beleza do povo negro se manifesta da Praça Castro Alves até a beira-mar soteropolitana, seguindo potentes trios elétricos. Blocos como o dos Filhos de Gandhi já existem há mais de 50 anos. Hoje fazem parte do patrimônio artístico cultural de nosso povo brasileiro. Em toda cidade sempre há um bloquinho ou grupo de dançantes pelas ruas e bairros. Uma veste singela, alguns adereços e alegria. Após a festa do corpo começava o período de abstinência e jejum por 40 dias.
A seu modo, cada região brinca e festeja com um rosto cultural próprio. Na maioria das vezes de forma propositalmente extravagante, mas também é infantil e familiar e coloca o povo nas ruas. O carnaval termina na quarta-feira de Cinzas em 18 de FEVEREIRO de 2026. Muitos pensam que o carnaval pede cinzas e outros nos informam que foi a quaresma que fez irromper previamente o carnaval. Antes do jejum a festa. Ou melhor, depois da festa, a frugalidade e a mudança de atitudes. Estão sempre conectadas no calendário. Uma pede a outra. Sem festa não há vida, sem penitencia e frugalidade não há fraternidade e comunhão.
As cinzas são símbolo de penitência, de luto, de fogo que extingue, e também de fênix que renasce e reacende do que parece morto, ao mostrar a finitude da matéria passada pela prova de fogo. Representam simultaneamente o pecado e a fragilidade humana (livro da Sabedoria 15,10; profeta Ezequiel 28,18; profeta Malaquias 3,21). Cobrir-se de cinzas é sinal público de arrependimento e forma concreta de colocar-se à prova. É manifestação pública da consciência do pecado e sua abjuração (Judite 4, 11-15; Ezequiel 27, 30), na esperança do perdão misericordioso de Deus.
Nos primeiros séculos do cristianismo os membros da Igreja que tivessem cometido pecados gravíssimos, motivo de grande escândalo, estavam sujeitos à uma penitência pública, que podia durar semanas ou mesmo anos, segundo a gravidade da culpa. Vinham estes descalços até a Sé Catedral, no primeiro dia da quaresma. O bispo da cidade depois de exortá-los ao arrependimento dos pecados, os cobria com um cilício, pequena túnica com cinto ou cordão, de material áspero ou grosseiro, trazido diretamente sobre a pele e atirava-lhes uma porção de cinzas na cabeça dizendo ao mesmo tempo: “Lembra-te, ó humano, que és pó e que a pó serás reduzido.” Eram jogados então fora da Igreja e não podiam mais entrar nesta enquanto não fosse cumprida a sua penitência.
No século XI, quiseram padres e leigos seguir esta prática de humilhação e penitência, reservada outrora aos pecadores públicos e notórios, e assim no Ocidente a partir do século XII o costume expandiu-se em todas as Igrejas quando os fiéis na Quarta-feira antes da Quadragésima iam receber cinzas em suas frontes. Hoje a fórmula é a mesma: “Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar (Gênesis 3,19)”, ou seguindo o Evangelho de Jesus segundo Marcos 1,15: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. “Na Quarta-feira anterior ao primeiro Domingo da Quaresma, os cristãos, recebendo as cinzas, entram no tempo estabelecido para que suas vidas se purifiquem. Este sinal de penitência, que vêm da tradição bíblica e que o costume da Igreja conservou até hoje, manifesta a condição da humanidade pecadora, que confessa exteriormente sua falta diante do Senhor e exprime assim a vontade de uma conversão interior, conduzida pela esperança que o Senhor será para nós pleno de ternura. Este sinal marca o começo do caminho de conversão, que atingirá sua meta pela celebração do sacramento da Penitência nos dias que precedem a Páscoa.” (Congregação para o culto divino, 18 de janeiro de 1988).
“Deste modo, a cinza recorda-nos o percurso da nossa existência: do pó à vida. Somos pó, terra, barro; mas, se nos deixarmos plasmar pelas mãos de Deus, tornamo-nos uma maravilha. Todavia muitas vezes, sobretudo nas dificuldades e na solidão, vemos só o nosso pó! Mas o Senhor encoraja-nos: o pouco que somos, aos olhos d’Ele tem valor infinito. Coragem! Nascemos para ser amados; nascemos para ser filhos de Deus”. (papa Francisco, Cinzas de 2020, in: http://www.vatican.va/content/
Quaresma, dos 40 dias (na verdade somamos 46 dias) que precedem a festa maior dos cristãos, a Páscoa. No ano de 2026 ela vai durar de 18 de fevereiro até 01 de abril quando se celebrará a Páscoa da Ressurreição começando o tríduo pascal. Até o século 7º, a Quaresma começava no Domingo da Quadragésima (quadragesima dies, o quadragésimo dia, na verdade, o quadragésimo segundo dia antes da Páscoa). Tendo em conta os domingos, durante os quais o jejum era interrompido, o número de dias até a Páscoa efetivamente era inferior a 40, e para continuar fiel ao simbolismo do número 40 (40 anos no deserto, 40 dias de jejum de Cristo) antecipou-se o começo da Quaresma para a Quarta-Feira precedente ao Domingo da Quadragésima: Dia das Cinzas.
Na Igreja primitiva era a última etapa da preparação do batismo para os catecúmenos, administrado na noite de Páscoa. Nos 40 dias, a Igreja incentiva à prática do jejum, da solidariedade com os pobres (esmola) e da oração. É tempo de voltar para Deus, de reaquecer a fé e de mudança de vida e superação das atitudes patológicas. Muitos ainda hoje se abstêm das carnes vermelhas, mas olvidam-se dos pobres, agindo de forma hipócrita. Diz Leão Magno: “É inútil tirar ao corpo a comida, se não tira d’alma o pecado”. A intuição central da
Quaresma é a mudança de atitudes e práticas favorecendo a solidariedade e a fraternidade. Recorda as tarefas urgentes de cada seguidor de Jesus: rezar e ouvir mais a Palavra de Deus, jejuar em favor dos que passam fome e partilhar o pão com quem não tem além de dispor-se a celebrar o Mistério Pascal com toda atenção e prioridade, cuidando da vida em perigo e reconhecendo Deus como Pai Criador.
Em 2026 a Campanha de Quaresma chamada Campanha da Fraternidade tem como tema: Fraternidade e Moradia e como lema: Ele veio morar entre nós. O tríduo pascal de 02 e 05 de abril. A primeira lua cheia do outono acontece em 01 de abril, às 23h11 e indica a virada do tempo da Páscoa judaica, bem como da Páscoa Cristã no Ocidente e no Oriente para as igrejas ortodoxas em especial coincidência de calendários litúrgicos das várias religiões.
A campanha quaresmal será articulada pela CNBB com 496 bispos envolvendo ativamente 281 catedrais, 12.540 paróquias e 50.159 comunidades eclesiais de base do Brasil, além de 4 mil escolas, dezenas de hospitais católicos, e difusão por rádios e televisões católicas e, também vivenciada em uma centena de Universidades católicas. Será tempo propício de oração, jejum e esmola. Tempo de alargar nossa mesa para partilhar o pão com todos e todas, sem discriminação, sem aporofobia e sobretudo sem nazismos e fascismos. Tempo de rezar pela paz no mundo. A diversidade nos une. O pluralismo nos enriquece. Deus é comunhão de pessoas. É hora de mudar o modo de viver e as palavras mal ditas. Hora de conversão. Somos pó e ao pó voltaremos. Arrogância é um grande engano. Viver com o necessário. O supérfluo é um roubo.
