
Entre os dias 3 e 6 de junho de 2026, a nossa Diocese de Corumbá viveu um momento histórico de profunda fé, comunhão e compromisso profético. Acolhemos com o coração aberto a II Romaria Nacional do Cerrado e I Romaria do Pantanal, um evento marcante organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), pela Articulação das CPTs do Cerrado e por nossa Diocese. Às margens do sagrado Rio Paraguai, caravanas vindas de nove estados brasileiros (Maranhão, Tocantins, Piauí, Rondônia, Mato Grosso, Bahia, Minas Gerais, Goiás e do nosso Mato Grosso do Sul) uniram suas vozes e passos em defesa da nossa “Casa Comum”.
Inspirada pelo lema “No Cerrado e Pantanal, correm os segredos sagrados das águas”, a Romaria foi um espaço de oração, mas também de denúncia contra os graves impactos da crise climática e da ganância que ameaça os nossos biomas.
Os primeiros dias da Romaria foram dedicados ao encontro direto com as realidades locais por meio de intercâmbios culturais e pastorais em diversas comunidades e territórios tradicionais. Romeiras e romeiros dividiram-se em visitas que geraram ricos diálogos sobre a resistência e o cuidado com a biodiversidade.
Na Aldeia Mãe Terra (Miranda/MS): Os participantes testemunharam a força das famílias indígenas Terena, Kinikinau, Guarani e Kaiowá. Entre cantos e partilhas, as lideranças alertaram para a diminuição drástica do nível do Rio Paraguai e para a necessidade urgente de proteger as águas da contaminação e do desmatamento.
No Assentamento São Gabriel (Corumbá/MS): A comunidade compartilhou sua dolorosa luta contra a escassez severa de água doce e os impactos dos incêndios criminosos que ferem o bioma. Contudo, a esperança também se fez presente no testemunho da Brigada Comunitária voluntária, onde homens e mulheres se organizam tecnicamente para proteger o Pantanal e combater o fogo.
No Quilombo Família Ozório: Onde a memória ancestral e as lutas das comunidades ribeirinhas e quilombolas se entrelaçaram às margens do rio, reafirmando que o direito ao território é indissociável da preservação da vida.
No Assentamento Taquaral: A comunidade celebrou o intercâmbio de vivências que envolveu as crianças e adolescentes da catequese da Associação da Família Escola Agroecológica do Pantanal (AEFAAP)
por meio da mística do Cristo de Palha, que fazia uma mescla do contato com a natureza e a vida de oração ao redor do encontro com o Cristo que apresentado na cruz se tornou referência de vida para todas as pessoas.
Foi um momento de grande luz e profunda mística que no faz animar na luta pelo cuidado de nossa Casa Comum: o Pantanal – Sérgio Silva, presidente da AEFAAP
Fé em movimento e o clamor pelas águas
Em Corumbá, a noite do dia 06 ganhou vida com a Feira Cultural e Agroecológica, um belíssimo testemunho de partilha de produtos agroecológicos, sementes e artesanatos produzidos pelas mãos camponesas e indígenas, ao redor de danças, música, gastronomia e muita fraternidade. Também foi realizado o Seminário Estadual de Educação do Campo, em parceria com a FETEMS, reforçando que o futuro dos nossos territórios passa por uma formação de qualidade e conectada com a realidade local.
O ponto alto e mais emocionante desse encontro aconteceu no dia 6 de junho. Uma grande caminhada celebrativa tomou conta das margens do Rio Paraguai. Romeiros carregando os símbolos de suas lutas, águas de diferentes bacias hidrográficas, bandeiras e cânticos caminharam juntos até o Porto Geral. Na celebração final, foi feito um forte apelo ecopolítico e espiritual: o Pantanal, maior área úmida do planeta, e o Cerrado, berço das águas do Brasil, não podem ser sacrificados pela lógica da destruição, pois todas as pessoas são responsáveis pela Casa Comum, nosso única morada e abrigo.
Foi uma empolgação que surgia ao redor de cada encontro que se interessou com a Romaria e o Cuidado com o Rio Paraguai, nosso berço (…) senti confiança naquilo que estava fazendo e não estava sozinha – Maria Paula, acadêmica da UFMS.
Como Igreja Particular de Corumbá, reafirmamos o compromisso assumido nesta Romaria. Unimo-nos às comunidades tradicionais, aos ribeirinhos, indígenas, quilombolas e camponeses. Como nos recorda o Hino da Romaria: “No desaguar das águas sagradas, Cerrado e Pantanal confluem caminhos de resistência”. Que São Francisco de Assis e Nossa Senhora nos ajudem a guardar esses segredos sagrados e a defender, sem vacilar, a vida que brota de nossas águas!


































